Estudo da TransUnion Brasil aponta desafios para o crescimento sustentável do Crédito do Trabalhador
Levantamento indica que a modalidade pode alcançar um universo de 40 milhões de trabalhadores CLT, mas avanço dependerá de monitoramento contínuo, inteligência de dados e gestão mais sofisticada das carteiras
Com a consolidação do Crédito do Trabalhador na agenda de bancos, fintechs e demais instituições financeiras, o consignado privado entra em uma nova etapa no Brasil, marcada pela necessidade de ampliar escala com maior precisão na concessão e no acompanhamento das carteiras. Dados de mercado apontam que a modalidade já alcançou R$ 117 bilhões em volume acumulado, montante que inclui a migração de contratos antigos, enquanto as novas operações são estimadas em cerca de R$ 49 bilhões.
A análise faz parte do estudo "Panorama do Crédito Consignado Privado", apresentado pela TransUnion Brasil no evento "Crédito do Trabalhador – O que aprendemos e qual o futuro do consignado após 1 ano de operação" realizado em conjunto com a Deloitte, que reuniu especialistas e cerca de 100 lideranças do setor financeiro, entre bancos e fintechs para discutir as transformações e os caminhos para o futuro da modalidade.
O progresso alcançado até o momento é significativo e abre caminho para ampliar ainda mais o potencial do produto. Atualmente, cerca de 10 milhões de trabalhadores possuem contratos ativos, em um universo estimado de 40 milhões de trabalhadores elegíveis que integram a força de trabalho formal no Brasil. Segundo o estudo, esses números evidenciam tanto a oportunidade de crescimento quanto os desafios operacionais que provavelmente moldarão a próxima fase do mercado.
O caminho para a eficiência
De acordo com o estudo, o consignado privado atravessou uma primeira etapa marcada por cautela e observação, seguida por um período de aceleração. Agora, entra em uma fase em que escala, qualidade da decisão e capacidade de acompanhar a carteira em tempo real passam a pesar mais do que o simples apetite de concessão.
“A primeira fase do Crédito do Trabalhador provou o apetite do mercado e a força de inclusão financeira da modalidade. Mas a próxima etapa será menos sobre crescer a qualquer custo e mais sobre crescer com inteligência”, afirma Ricardo Salama, CRO da TransUnion Brasil. “As instituições que conseguirão capturar mais valor serão aquelas capazes de antecipar tendências, identificar os clientes certos, precificar corretamente o risco, maximizar conversão preservando qualidade e agir com velocidade diante das mudanças do mercado”, aponta Salama.
Com margens mais pressionadas e um ambiente regulatório ainda em evolução, a agenda do mercado tende a se voltar cada vez mais para a portabilidade e a retenção de clientes. Nesse cenário, a consolidação da infraestrutura da Dataprev aparece como condição central para reduzir gargalos e permitir operações em maior escala. O relatório também chama atenção para a necessidade de separar, nas análises de mercado, o que são novas contratações do que corresponde ao tombamento de contratos já existentes.
“Essa distinção é importante para que o setor não superestime o ritmo real de originação (novas operações) nem subestime a complexidade da gestão daqui para frente”, diz Salama. “À medida que a portabilidade ganhar tração, as instituições precisarão olhar para a carteira com muito mais granularidade: quem tem maior propensão a permanecer, quem pode migrar e quais sinais indicam deterioração de risco”.
Risco trabalhista no centro da carteira
A gestão de risco também ganha novo contorno. O principal evento de inadimplência tende a estar menos associado à falta de pagamento e mais à perda do vínculo empregatício. Quando isso ocorre, o empréstimo deixa de contar com o desconto em folha e passa a se comportar de forma semelhante a um crédito pessoal sem garantia operacional. “O risco do consignado privado é profundamente conectado à dinâmica do emprego formal”, afirma o CRO. “Por isso, monitorar mudanças no status empregatício não é um recurso adicional; é parte essencial da sustentabilidade da carteira”.
O levantamento mostra ainda que a modalidade tem forte concentração entre trabalhadores com renda de até quatro salários-mínimos, o que reforça seu papel na substituição de dívidas mais caras e no acesso a crédito com melhores condições. Ao mesmo tempo, esse perfil exige modelos preditivos capazes de antecipar choques de renda, desemprego e mudanças de comportamento financeiro.
“Há um impacto social relevante quando o trabalhador troca modalidades mais caras por uma linha com desconto em folha. Mas esse benefício só se sustenta se a concessão vier acompanhada de dados, tecnologia e governança de risco”, complementa Salama. “A nova agenda do consignado privado será definida pela capacidade de transformar informação em decisão rápida, precisa e responsável”.
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